Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Em directo, do Royal Roost...

 

Páginas históricas do Bird

(in DNMais, suplemento do Diário de Notícias, 01.05.99)

 

Perante a impressão, ainda fresca, da enriquecedora audição desta sumptuosa edição, não podia deixar de se apresentar ao escriba a habitual dificuldade de partilhar de forma organizada com os que o lêem algumas das principais pistas de abordagem de um empreendimento editorial deste calibre.

Natural seria que começasse por vos falar da excelência de muitas das peças que aqui nos são devolvidas, de forma exemplar, pelo cuidadíssimo trabalho musicológico de um dos maiores produtores de todo o jazz, Orrin Keepnews, a quem os mais recentemente chegados ao jazz, bem como os seus mais experimentados amadores, têm ficado a dever, sobretudo nos últimos anos, um conjunto de trabalhos de reconstituição e reedição discográfica a todos os títulos exemplar.

Prefiro, entretanto, iniciar estas breves e sempre insuficientes notas pela constatação de que esta edição, pela fiel reprodução de uma das situações por excelência mais exaltantes na produção do jazz  – a actuação ao vivo, em contacto com o público e com o meio envolvente, de criadores dos mais destacados da sua história –, mais uma vez vem dessacralizar o próprio acto de fruição desta música.

De facto, ao enfrentar estas gravações  – em parte «invadidas» pelas intervenções extemporâneas de «Symphony Sid» Torin, o obsessivo  apresentador do Royal Roost, e por vezes subvertidas por deficiências técnicas, inerentes à situação logística concreta ou pelas constantes reacções do público e interferências de ruídos parasitas, que se desejaria fossem menos presentes –  o ouvinte mais «purista» é chamado de novo a compreender aquela que é, também, uma das especificidades do jazz, enquanto música de raiz eminentemente popular, à qual durante muito tempo foi alheio o conforto da sala de concertos ou a transparência incólume da alta-fidelidade caseira.

E, no entanto, não deixa de ser contraditória a coexistência temporal entre, por um lado, a entusiástica adesão ao vivo por parte de receptores porventura ainda apegados aos aspectos mais imediatistas da fruição do jazz  – sobretudo ao nível da excitação colectiva e interactiva provocada pelos fenómenos tímbricos e rítmicos mais superficiais –  e, por outro lado, a própria transcendência deste jazz que aqui era criado  [por Charlie Parker e seus companeiros]  e que ultrapassava, em muito, o lastro desse já ilusório imediatismo.

Situadas entre 1947 e 1950, ou seja imediatamente após a chegada do saxofonista a Nova Iorque vindo de uma prolongada cura de desintoxicação no Hospital de Camarillo, estas gravações são bem representativas do período em que a genialidade de Charlie Parker se afirmava em toda a sua exuberância, particularmente nos trabalhos de estúdio para a Savoy ou para a Dial, duas das mais importantes editoras discográficas independentes existentes à época no domínio do jazz.

É também este o período em que, pelos grupos sob a liderança do «Bird», passam músicos do calibre de Dizzy Gillespie, Miles Davis ou Kenny Dorham (trompete), Tadd Dameron ou Al Haig (piano), os mais estáveis Curley Russell e Tommy Potter (contrabaixo) e Max Roach (bateria).  Mas estes CDs dão-nos ainda a ouvir descontraídas sessões nas quais participam destacados modernistas brancos, como Conte Candoli (trompete) ou Shelly Manne (bateria), representantes da época do Swing, como Flip Phillips, o canto de Jon Hendricks, muito anos antes do trio que formou com Dave Lambert e Annie Ross, ou alguns músicos menos conhecidos da área de Chicago, como esse inesperado guitarrista que dava pelo nome de George Freeman.

São essencialmente três os diferentes contextos em que estas recolhas foram realizadas. A maior fatia do bolo permite-nos longamente saborear, em primeiro lugar, muito do impressionante material que, entre 1948 e 1949, foi transmitido em directo, via rádio, a partir do Royal Roost, um clube nova-iorquino situado na Broadway e tão famoso que lhe chamavam The Metropolitan Bopera House.

Depois, datada de 1950, é-nos revelada uma gravação praticamente desconhecida realizada durante uma jam-session em Chicago, com uma composição e participação instrumental verdadeiramente surpreendente.

Finalmente, numa sequência de transferência para o suporte CD que não pretende respeitar a cronologia, recuamos no tempo, a 1947, e a um famosíssimo concerto do quinteto de Parker (com um Dizzy Gillespie em forma transcendente, mas com outra secção rítmica incluindo John Lewis, Al McKibbon e Joe Harris)  realizado no Carnegie Hall, também de Nova Iorque.

Claro que não é demais chamar a atenção para a cuidada e meticulosa análise musical de Loren Schoenberg que, em 22 das 60 páginas que ocupam as completíssimas notas discográficas desta edição, é feita a propósito de cada uma das faixas aqui recolhidas, nem poderia esquecer-se o notável enquadramento histórico e sociológico, quanto ao tempo e lugar deste acontecimento musical, nelas avançado por Paul Bacon.

Seja-me, entretanto, permitido chamar de forma breve e sucinta a atenção do leitor para meia dúzia de peças que julgo serem das mais invulgares ou decisivas neste conjunto de preciosidades: a beleza de Big Foot, a vertigem da execução e das improvisações em Hot House (15 Jan. 49), Be-Bop ou Confirmation (19, 12 Fev. 49), a transfiguração de How High the Moon (18 Dez. 48), o desvario de Milt Jackson em Anthropology ou todo o concerto no Carnegie Hall, com um histórico Night in Tunisia.

Indispensável.


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:00
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